Sujeito Cindido

Dra. Monique Nascimento

Podcast dedicado a refletir sobre questões relacionadas às subjetividades, trabalho e outras questões relacionadas à cultura, sendo apresentado por Monique Nascimento. Monique Nascimento é doutora e mestra pela Universidade Federal de Santa Catarina, psicanalista e pesquisadora. read less
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Perspectivas em Cena - Homoparentalidade e psicanálise: Morte e Vida - Convidado Thiago Lusvardi
08-09-2023
Perspectivas em Cena - Homoparentalidade e psicanálise: Morte e Vida - Convidado Thiago Lusvardi
Na psicanálise, a família é compreendida como o primeiro núcleo estruturante e socializador da criança; entidade fundamental para alicerçar as bases identitárias do indivíduo. Assim, o inconsciente do infante se configura na família e em sua complexa e delicada rede de tramas geracionais e inúmeras determinações inconscientes, colocadas não só pelos genitores, mas também pelos pais e avós de cada um destes. Como isso, a maternidade e a paternidade não dependem do ato biológico de tornar-se pai ou mãe, mas de ocupar esses lugares e papéis simbólicos para uma criança, colocando-a no lugar de filho. Não fosse dessa forma, as adoções de crianças seriam impossíveis. Em casos de família monoparental, onde apenas um dos membros, em geral a mulher, do casal parental está presente, ambas as funções podem estar presentes no mesmo sujeito, ou até mesmo, a função paterna pode estar referenciada a um terceiro, para além da relação do sujeito infante com a mãe. Frisa-se que os discursos preconceituosos/de ódio reforçam discursos e práticas violentas. Mesmo entre analistas tais discursos podem ser observados. Nesse sentido, retomando-se Quinet, reforça-se “O psicanalista não pode ser preconceituoso e deixar-se contaminar pela moral, religião ou discurso da ciência que foraclui o sujeito. A psicanálise é antirracista, pois admite que o estrangeiro habita o âmago de cada um e o diferente (heteros) é parte de si. Cabe ao analista fazer entrar a consideração pelo gozo do sinthoma, com sua singularidade, no discurso de sua polis. E no espaço público e no privado, trazer a política que sua prática ensina”. Thiago é psicólogo com percurso psicanalítico, coordenador de serviço de atenção à famílias em situação de violência e risco social em Campinas, Professor universitário. Mestre pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e doutorando pela Faculdade de Saúde Pública da USP.
Perspectivas em Cena - Fibromialgia: Sintomas, diagnóstico e tratamento - Convidadas: Letícia Nogueira e Sheila Oliveira
04-08-2023
Perspectivas em Cena - Fibromialgia: Sintomas, diagnóstico e tratamento - Convidadas: Letícia Nogueira e Sheila Oliveira
Fibromialgia - Entendida como experiência sensorial e emocional desagradável, a dor é considerada tradicionalmente um sinal, sintoma, que alerta para a ocorrência de lesões no organismo. No entanto, são numerosos os exemplos de dores corporais sem base fisiológica observável. O diagnóstico e o tratamento da dor crônica têm mobilizado profissionais de diferentes áreas e é uma das razões de procura por atendimento médico e afastamento do trabalho. As síndromes de dor crônica têm a dor como sintoma principal e são classificadas de acordo com a região acometida, incluindo-se a fibromialgia. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, essa síndrome acomete 8% da população, sendo a maioria dos casos observado em mulheres. Nela prevalece a dor generalizada em distintas regiões do corpo. Em geral, essas dores são concomitantes a outras manifestações corporais, como cansaço, rigidez muscular, perturbações do sono, alterações no funcionamento do intestino, dores de cabeça e dores difusas e etc. Apesar desse agrupamento de sintomas e da evolução clínica conhecida, até o momento não se descobriu a causa orgânica para a fibromialgia. Além disso, não há resposta homogênea à terapêutica farmacológica e, em muitas situações, a dor permanece mesmo sendo empregados os mais poderosos analgésicos. Em muitos dos casos recorre-se a antidepressivos como possibilidade de tratamento. Para a psicanálise, a dor crônica expõe questões cruciais sobre o corpo e a regulação das pulsões. Diante do enigma de uma dor que faz sua morada no corpo e, tal como o sintoma, se repete e, como a pulsão, insiste; a psicanálise é convocada a intervir, aceitando a abordagem multidisciplinar indicada para seu tratamento. Algumas formulações freudianas sobre a dor são a base da reflexão de alguns psicanalistas que se dedicam ao trabalho sobre esse tema atualmente. Em especial, as que se referem a vicissitudes na capacidade do aparelho psíquico lidar com o excesso que seria próprio da dor. Igualmente em consonância com a proposta freudiana, Leite e Pereira entendem que “A dor marca o limite do eu atravessado por um excesso. Ela erotiza o corpo que arrisca revelar-se como carne crua, reveste o corpo orgânico que tanto horroriza a histérica” (p. 102). Nesse caso, a dor corporal sem causa orgânica indica seu caráter de mensagem a ser decifrada. Revela-se um sintoma freudiano que se relaciona com a história do sujeito, tem um sentido e se oferece à decifração. Nessa direção, alguns autores pontuam a fibromialgia como um fenômeno também psicossomático. Outros, a observam como próxima de manifestações histéricas nos temos hodiernos. Tendo isso em mente, realizamos uma conversa com a Médica Neurologista Letícia Nogueira e a psicóloga Sheila Oliveira, acerca da fibromialgia, com enfoque em seus sintomas, diagnóstico, tratamento e interlocuções com a psicanálise.
Dose de Reflexão - Cinco lições de Psicanálise - Episódio 13
20-03-2023
Dose de Reflexão - Cinco lições de Psicanálise - Episódio 13
Em 1908, Freud recebeu um convite para apresentar discussões acerca da psicanálise na Clark University. No ano de 1909, o convite feito por Stanley Hall foi concretizado. Freud se deslocou à Worcester, por ocasião do vigésimo aniversário da referida instituição, e pronunciou as cinco lições de Psicanálise, inaugurando a primeira exposição sistemática de sua teoria. Momento que foi considerado um marco do reconhecimento de suas descobertas. Cabe mencionar que entre as cinco lições expostas por Freud estão importantes conceitos do arcabouço teórico que envolve a psicanálise, como histeria, resistência e repressão, chistes e atos falhos, sintomas e sexualidade, e, transferência. Lacan (1955/1988), relatou que em um encontro com Jung, lhe afirmou que quando viajava junto de Freud para a série de Conferências na Clark University, Freud teria dito, no instante em que avistaram a célebre Estátua da Liberdade: “Mal sabem eles que eu lhes trago a peste!” Transcorrido mais de um século, a conferência realizada por Freud, a partir de cinco lições, é, ainda, um importante material para aqueles que se interessam pela psicanálise. Inclusive, para aqueles que farão um primeiro contato com a obra freudiana por intermédio delas. A peste segue se espalhando e introduzindo mudanças na posição subjetiva de quem é por ela inoculada e tem seu modo de viver a realidade subvertido a partir de torções subjetivas.
Dose de Reflexão - Depressão: um olhar psicanalítico - Episódio 12
28-07-2022
Dose de Reflexão - Depressão: um olhar psicanalítico - Episódio 12
A depressão enquanto transtorno mental começou a ganhar evidência pós crise de 29 e foi impulsionada pós ascensão do neoliberalismo. Em termos mais próximos da psiquiatria. Depressão envolve anedonia. A incapacidade, amortecimento, neutralização da nossa experiência de prazer. Um sujeito depressivo perde a graça, a sua relação com o desejo. Há uma impossibilidade que o sujeito experimenta diante da vida, diante do seu desejo. A depressão envolve também sintomas corporais, como insônia, aumento ou perda de apetite, sentimento de cansaço, dores no corpo, humor irritativo. Nem sempre é possível associar a depressão a tristeza, existem casos em que a pessoa se auto acelera para evitar o encontro com o vazio. Nos tempos atuais, parece haver um enfoque naquilo que seria “sintomático”, no que as pessoas sentem, e pouco se atenta para a causa, inclusive, quando se fala de depressão. A psicanálise aceita a questão da depressão enquanto fenômeno químico, não faz essa distinção entre subjetividade e questões “cerebrais”. Contudo, não vai na linha da depressão enquanto algo semelhante a diabetes, em que se toma algo para o resto da vida e que mantém a glicemia “na linha”. Como se a questão da depressão não tivesse relação com a forma como se relaciona, trabalha, deseja, fala. Aliás, a depressão congrega fenômenos e etiologias diversos, como trauma, luto, recalque, fobias, situações de dissociação, psicose. Em Lacan pode ser entendida como sintoma não presente, sintoma que deixa um rastro. Em Freud, enquanto inibição, algo que o sintoma que não dá conta – lembrando que no sentido clássico, sintoma seria algo que deriva de um conflito. Maria Rita Kehl, fala de dobradura no tempo. De modos de criação, aceleração, que impactariam a relação com a falta. Hodiernamente, antes que a falta se constitua e que se tenha uma dialética entre desejo e demanda, se tem a oferta. A oferta antecipada tem a ver com o ritmo de troca da falta, Segundo Dunker, lembra mecanismo de consumo. A mãe do futuro depressivo é aquela que não espera a falta e antes oferece. O sujeito seria aquele que antes de entrar na dialética com o desejo e a demanda do outro, renuncia, renuncia o conflito - mudando o destino do afeto - como uma espécie de “defesa” pré conflito (sintoma), defesa por inibição. Em resumo, em psicanálise, diante do conflito o sujeito depressivo transforma seu eu, se inibe. Seria uma maneira de lidar com o mundo não fixando em conflitos, mas inibindo, intensificando, se adaptando ou mudando sua paisagem mental ou aquela que se pode comprar.
Dose de Reflexão - Narcisismos: Uma breve introdução aos usos iniciais do termo narcisismo - Episódio 09
27-05-2022
Dose de Reflexão - Narcisismos: Uma breve introdução aos usos iniciais do termo narcisismo - Episódio 09
Em sua obra de 1914, Freud retoma o aforismo de Busch sobre o poeta com dor de dente para falar do recolhimento do interesse libidinal dos objetos de amor por parte do adoecido. Nas palavras de Busch: “A alma inteira encontra-se recolhida na estreita cavidade do molar". Nessa frase, vemos o deslocamento da libido enquanto um importante fenômeno para a discussão de nosso tema. Nos dias atuais, a utilização do termo narcisismo, em referência ao mito de Narciso, se faz presente nas mais diversas formas de conhecimento e de manifestação artística. Nesse sentido, tal palavra tende a não ser estranha mesmo àqueles que não possuem aproximação com a psicanálise e, de modo corriqueiro, denomina-se de narcisista alguém inconveniente, desagradável, que tende a falar muito de si e a vangloriar-se, sobremaneira, de seus feitos. Em psicanálise, narcisismo é um termo de uso relativamente comum em distintas abordagens. No entanto, embora na teoria psicanalítica o conceito seja compreendido como pilar da constituição subjetiva, conforme Miguelez (2007), há uma forte tendência ao achatamento e à sua banalização, reduzindo-o a sinônimo de egoísmo. Além de polissêmica, a noção de narcisismo é apontada por Miguelez (2007) como uma das mais complexas da psicanálise. Ademais, tendo em vista circunstâncias que envolvem o momento em que foi inserida na obra freudiana, os seus diferentes usos e nuances, interpretações, fenômenos abarcados e articulações a outros termos, o autor sugere o uso da expressão narcisismos, ao invés de narcisismo. Caso queira saber mais, acesse nossa página do instagram @dra.moniquenascimento.